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	<title>PSOL Mogi das Cruzes &#187; capitalismo</title>
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		<title>Brasileiros querem governo influente sobre o mercado</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Nov 2009 13:26:06 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Os brasileiros formam, entre 27 grupos consultados, o povo mais  favorável à regulação dos negócios pelo governo e um dos três que mais querem do Estado o exercício de papel ativo para promover a distribuição de renda.
Essas posições, indicadoras de insatisfação com o capitalismo, constam de pesquisa realizada pelo Instituto GlobeScan, a pedido da rede [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os brasileiros formam, entre 27 grupos consultados, o povo mais  favorável à regulação dos negócios pelo governo e um dos três que mais querem do Estado o exercício de papel ativo para promover a distribuição de renda.<br />
Essas posições, indicadoras de insatisfação com o capitalismo, constam de pesquisa realizada pelo Instituto GlobeScan, a pedido da rede britânica de comunicação BBC,  com 29.033 pessoas de 27 países. <span id="more-603"></span>No Brasil foram feitas 835 entrevistas, de 2 a 4 de julho, em Brasília e oito capitais estaduais. Em síntese, o que a pesquisa apurou aqui é que 87% dos entrevistados desejam que o governo exerça papel maior na regulação dos negócios – índice superior ao apurado em qualquer outro país; e 89% querem que o Estado seja mais ativo para promover a distri  bui  ção de renda – índice  supera  do  apenas  pelos  mexicanos  (92%)  e chilenos (91%).<br />
A pesquisa informa ainda que 64% dos brasileiros – um dos maiores índices identificados &#8211; defendem maior controle do governo sobre a indústria e os negócios.<br />
A conclusão geral da pesquisa é a de que se disseminou pelo mundo a desilusão com o capitalismo. Só 11% do total de entrevistados disseram que a economia capitalista funciona corretamente, enquanto 51% manifestaram  a  crença  de  que  suas  falhas  podem  ser resolvidas com mais regulação e reformas. Os únicos países em que mais de 20% dos entrevistados disseram que o capitalismo está funcionando bem são os Estados Unidos (25%) e o Paquistão (21%).<br />
&#8220;Parece que a queda do Muro de Berlim &#8211; que ontem completou  20  anos  e  foi  simulada  com  a  queda  de dominós &#8211; pode não ter sido a vitória arrasadora<br />
do  capitalismo  de  livre  mercado  que  se  acreditava então, em particular depois dos acontecimentos dos últimos 12 meses&#8221;, avaliou Doug Miller, presidente da Instituto  GlobeScan,  referindo-se  à  crise  financeira internacional.<br />
Os  brasileiros  formam  o  terceiro  grupo  nacional entre aqueles que consideram indispensável um novo modelo econômico porque o capitalismo sofre de defeitos  insuperáveis. Esse grupo é proporcionalmente maior na França (43%) e no México (38%) do que no Brasil (35%).<br />
Em 15 dos 27 países que formaram o universo da pesquisa a maioria dos entrevistados desejam que seus governos exerçam maior controle sobre suas indústrias. Esse desejo é maior entre os russos (77%).<br />
Depois do colapso das instituições financeiras e dos trilhonários planos de socorro e de recuperação adotados pelos governos, a maioria dos entrevistados em 17<br />
países desejam maior regulação da economia. Em 22 dos 27 países, sobretudo entre os latino-americanos, os pesquisados  se pronunciaram majoritariamente por uma divisão menos desigual ou mais  igualitária das riquezas. (Com agências)</p>
<p>Matéria publicada originalmente no site <a href="http://www.brasiliaconfidencial.inf.br/?p=4646" target="_blank">Brasília Confidencial,</a> edição de 9 de novembro de 2009.</p>
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		<title>Uma segunda Grande Depress&#227;o ainda &#233; poss&#237;vel</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 17:18:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ Alguns economistas estão dizendo que a recessão estará encerrada muito brevemente. O futuro é fundamentalmente incerto, o que faz com que a prática de predições sempre seja um empreendimento temerário. Isso quer dizer que há uma boa chance de o novo consenso estar errado. Em vez disso, há bases sólidas para acreditar que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.psolmogi.org.br/wp-content/uploads/2009/10/foto_mat_24030.jpg"><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 5px 5px 35px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px" title="foto_mat_24030" border="0" alt="foto_mat_24030" align="left" src="http://www.psolmogi.org.br/wp-content/uploads/2009/10/foto_mat_24030_thumb.jpg" width="270" height="146" /></a> Alguns economistas estão dizendo que a recessão estará encerrada muito brevemente. O futuro é fundamentalmente incerto, o que faz com que a prática de predições sempre seja um empreendimento temerário. Isso quer dizer que há uma boa chance de o novo consenso estar errado. Em vez disso, há bases sólidas para acreditar que a economia dos EUA experimentará uma segunda queda, seguida por prolongada estagnação que será qualificada como a segunda Grande Depressão. A análise é do economista Thomas I. Palley.</p>
<p> <span id="more-590"></span>
</p>
<p>Thomas I. Palley (*)</p>
<p>Ao longo do ano passado a economia global experimentou uma contração massiva, a mais profunda desde a Grande Depressão dos anos 30. Porém, nesta primavera, os economistas começaram a falar em <i>“green shoots”</i> <b>(1)</b> de retomada e essas afirmações otimistas rapidamente se espalharam por Wall Street. Mais recentemente, no aniversário da quebra do Lehman Brothers, o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, abençoou oficialmente esse consenso, ao declarar que a recessão estará “encerrada muito brevemente”.     <br />O futuro é fundamentalmente incerto, o que faz com que a prática de predições sempre seja um empreendimento temerário. Isso quer dizer que há uma boa chance de o novo consenso estar errado. Em vez disso, há bases sólidas para acreditar que a economia dos EUA experimentará uma segunda queda, seguida por prolongada estagnação que será qualificada como a segunda Grande Depressão. Algumas indicações desse efeito já podem ser percebidas na inesperada ampliação das perdas de postos de trabalho nos EUA em setembro, e a queda na venda de automóveis nos país segue o fim do programa <i>“Cash for Clunkers”</i> <b>(2)</b>.    <br />Que esse cenário rosa de pensamento tenha retornado a Wall Street nao deveria surpreender. Wall Street lucra com o aumento do preço dos títulos sobre os quais acarreta taxas de gerenciamento, ganha com a negociação para recomendá-los, e com o encorajamento de retenção de investimentos para comprar ações que estimulam as transações. Esses ganhos são muitíssimo maiores quando as ações do mercado estão em alta, o que explica a propensão genética de Wall Street a pressionar a economia.     <br />Quanto aos economistas <i>mainstream</i>, seus modelos teóricos foram ofuscados pela crise e eles só predizem a recuperação por conta dos compromissos declarados nos seus modelos. De acordo com a teoria <i>mainstream</i>, está dado que o pleno emprego é um ponto de gravidade em relação ao qual a economia está recuada.     <br />Modelos de econometria empíricos são igualmente questionáveis. Eles também predizem a recuperação gradual, mas que seja dirigida por critérios de reversão de tendências observadas em dados passados. O problema, como dizem os investidores profissionais, é que “o desempenho anterior não é critério para o desempenho futuro”. A crise econômica representa a implosão do paradigma econômico que comandou o crescimento estadunidense e global ao longo dos últimos trinta anos. Esse paradigma estava baseado no aumento do consumo estimulado pelo endividamento e pela inflação dos preços das ações, e se foi.     <br />Há uma lógica simples para explicar por que a economia experimentará uma segunda queda. Essa lógica repousa na desaceleração que produz, inevitavelmente, um castigo em duas etapas. A primeira já está em curso, e provocou a crise financeira que causou a pior recessão desde a Grande Depressão. A segunda apenas começou.     <br />A desaceleração pode ser entendida através de uma metáfora na qual um carro simboliza a economia. Emprestar é como pisar no acelerador e acelerar a atividade econômica. Quando o empréstimo pára, o pé se afasta do pedal do acelerador e o carro diminui a velocidade. Contudo, agora o motor do carro está sobrecarregado pela acumulação de débito, de modo que a atividade econômica diminui em comparação com o nível anterior.     <br />Com a desaceleração, as economias domésticas aumentaram a liquidação e negociação de dívidas. Essa é a segunda etapa e é como pisar no freio, o que faz com que a economia desacelere ainda ao nível de uma queda dupla. A rápida desaceleração, como a que está acontecendo agora, é equivalente a pisar no freio com força. O único aspecto positivo é que isso reduz o endividamento, o que é quase a mesma coisa que remover peso da máquina. Isso ajuda a estabilizar a atividade num nível mais baixo, mas não acelera o carro como dizem os economistas.     <br />Infelizmente a metáfora do carro só dá conta parcialmente das condições atuais, à medida que defende que o processo de desaceleração na economia é estável. Ainda, já houve uma crise financeira e a economia real está agora infectada por um processo multiplicador causando gastos mais baixos, perda massiva de emprego e falências comerciais. Essa desaceleração a mais cria a possibilidade de uma queda em espiral que constituiria uma depressão.     <br />Essa espiral é capturada pela metáfora do Titanic, que foi pensado para ser impecável devido aos seus próprios tabiques sequencialmente estruturados. Contudo, esses tabiques não tinham teto, e quando o Titanic bateu no iceberg que danificou seu lado, os tabiques da frente se encheram d&#8217;água e se renderam. A água, então, agitou os tabiques da popa, causando o naufrágio do navio.     <br />A economia dos EUA bateu num iceberg de endividamento. O dano resultante ameaça o fluxo dos mecanismos de estabilização da economia, que o economista Hyman Minsky chamou de &#8211; <i>“thwarting institutions”</i> [algo como “instituições de anulação”].    <br />O seguro desemprego não está no topo de sua magnitude e está expirando para muitos trabalhadores. Isso projeta na sequência uma redução dos gastos e o agravamento do problema das hipotecas.     <br />Os Estados estão limitados pelas exigências de equilíbrio fiscal e estão cortando gastos e empregos. Consequentemente, o setor público está jogando o setor privado em contradição.     <br />A destruição das economias domésticas significa que muitos lares estão no limite ou com saldo negativo em seus orçamentos. Isso aumenta a pressão para salvar e bloquear o acesso a empréstimos que podem dar o impulso inicial da recuperação. Mais ainda, tanto as economias domésticas como o setor comercial enfrentam bancarrotas extensivas, que amplificam o choque multiplicador de perdas e também limitam a atividade econômica futura ao destruir históricos de crédito <b>(3)</b> e o acesso ao crédito.    <br />Por último, os EUA continuam a sangrar através da tripla hemorragia de déficit comercial que drena os gastos via importações, trabalho de imigrantes ilegais e investimentos desregulados. Essa hemorragia ficou evidenciada no programa <i>“Cash for Clunkers”</i>, no qual oito em cada dez veículos dos mais vendidos eram de marcas estrangeiras. Consequentemente, mesmo enormes estímulos fiscais teriam seu efeito reduzido.    <br />A crise financeira criou uma onda de retornos nos mercados financeiros. Uma desaceleração sem paralelo e o processo multiplicador repercutiu de modo adverso na economia real. Esse é um retorno dificílimo de ser revertido, o que explica por que uma segunda Grande Depressão permanece uma possibilidade real.     <br /><i>(*) Thomas Palley é pós-doutorado em Economia pela Universidade de Yale, e criador da organização não-governamental Economics for Democratic &amp; Open Societies (Economia para Sociedades Abertas e Democráticas)     <br />Página do autor: <a href="http://www.thomaspalley.com">http://www.thomaspalley.com</a></i>    <br /><b>(1)</b> N.deT. Em economia, a expressão “green shoots&#8217; pode ser uma queda nos números do desemprego, uma subida nas vendas no varejo ou na confiança do consumidor. Tudo isso representa pontos de partida para o crescimento econômico depois de uma recessão. Agora, se de fato está em curso essa retomada a partir da verificação desses índices é uma outra questão. in: http://www.davemanuel.com/investor-dictionary/green-shoots/     <br /><b>(2)</b> N.deT. O programa “Cash for Clunkers”, em tradução livre &quot;Dinheiro para Carroças&quot;, do governo federal estadunidense é um programa de subsídios para a aquisição de automóveis novos, a título de estímulo fiscal para a retomada do crescimento econômico. Os proprietários de automóveis podiam receber subsídios para trocar seus carros por novos na ordem de quase 5 mil dólares, desde que os carros em via de aquisição fossem mais eficientes na relação entre aproveitamento de combustível e custo do mesmo. Esse programa, durante um período, estimulou as vendas do setor, mas estaria, conforme afirma o autor do artigo, sem apresentar resultados satisfatórios, no momento.     <br /><b>(3)</b> Sobre o conceito de histórico de crédito, ver: http://en.wikipedia.org/wiki/Credit_history N.deT.    <br /><b><i>Tradução: Katarina Peixoto</i></b>    <br />Foto da abertura: Stephen Chernin/Getty Images </p>
<p>&#160;</p>
<p>Matéria publicada no site <a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16193&amp;boletim_id=602&amp;componente_id=10113" target="_blank">Carta Maior</a></p>
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		<title>Eric Hobsbawm: uma nova igualdade depois da crise</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Oct 2009 17:21:00 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[ O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.psolmogi.org.br/wp-content/uploads/2009/10/foto_mat_23977.jpg"><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; margin-left: 0px; border-top: 0px; margin-right: 0px; border-right: 0px" title="foto_mat_23977" border="0" alt="foto_mat_23977" align="left" src="http://www.psolmogi.org.br/wp-content/uploads/2009/10/foto_mat_23977_thumb.jpg" width="130" height="122" /></a> O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI. A análise é de Eric Hobsbawm.</p>
<p> <span id="more-593"></span>
<p>&#160;</p>
<p>IHU &#8211; Instituto Humanitas (Unisinos)</p>
<p>Publicamos aqui parte da conferência que o historiador inglês e membro da Academia Britânica de Ciências Eric J. Hobsbawm apresentou no primeiro dia do <i>World Political Forum</i>, em Bosco Marengo (Alexandria). Do Fórum deste ano, sobre o tema &quot;O Leste: qual futuro depois do comunismo?&quot;, participam, dentre outros, Mikhail Gorbachev e Yuri Afanasiev.    <br />Segundo Hobsbawn, todos os países do Leste, assim como os do Oeste, devem sair da ortodoxia do crescimento econômico a todo custo e dar mais atenção à equidade social. Os países ex-soviéticos, afirma, ainda não superaram as dificuldades da transição para o novo sistema.    <br />O texto foi publicado no jornal <i>La Repubblica</i>, em 09-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.    <br />Eis o artigo.    <br />O &quot;século breve&quot;, o XX, foi um período marcado por um conflito religioso entre ideologias laicas. Por razões mais históricas do que lógicas, ele foi dominado pela contraposição de dois modelos econômicos – e apenas dois modelos exclusivos entre si – o &quot;Socialismo&quot;, identificado com economias de planejamento central de tipo soviético, e o &quot;Capitalismo&quot;, que cobria todo o resto.    <br />Essa contraposição aparentemente fundamental entre um sistema que ambiciona tirar do meio do caminho as empresas privadas interessadas nos lucros (o mercado, por exemplo) e um que pretendia libertar o mercado de toda restrição oficial ou de outro tipo nunca foi realista. Todas as economias modernas devem combinar público e privado de vários modos e em vários graus, e de fato fazem isso. Ambas as tentativas de viver à altura dessa lógica totalmente binária dessas definições de &quot;capitalismo&quot; e &quot;socialismo&quot; faliram. As economias de tipo soviético e as organizações e gestões estatais sobreviveram aos anos 80. O &quot;fundamentalismo de mercado&quot; anglo-americano quebrou em 2008, no momento do seu apogeu. O século XXI deverá reconsiderar, portanto, os seus próprios problemas em termos muito mais realistas.    <br />Como tudo isso influi sobre países que no passado eram devotados ao modelo &quot;socialista&quot;? Sob o socialismo, haviam reencontrado a impossibilidade de reformar os seus sistemas administrativos de planejamento estatal, mesmo que os seus técnicos e os seus economistas estivessem plenamente conscientes das suas principais carências. Os sistemas – não competitivos em nível internacional – foram capazes de sobreviver até que pudessem continuar completamente isolados do resto da economia mundial.    <br />Esse isolamento, porém, não pôde ser mantido no tempo, e, quando o socialismo foi abandonado – seja em seguida à queda dos regimes políticos como na Europa, seja pelo próprio regime, como na China ou no Vietnã – estes, sem nenhum pré-aviso, se encontraram imersos naquela que para muitos pareceu ser a única alternativa disponível: o capitalismo globalizado, na sua forma então predominante de capitalismo de livre mercado.    <br />As consequências diretas na Europa foram catastróficas. Os países da ex-União Soviética ainda não superaram as suas repercussões. A China, para sua sorte, escolheu um modelo capitalista diferente do neoliberalismo anglo-americano, preferindo o modelo muito mais dirigista das &quot;economias tigres&quot; ou de assalto da Ásia oriental, mas abriu caminho para o seu &quot;gigantesco salto econômico para frente&quot; com muito pouca preocupação e consideração pelas implicações sociais e humanas.    <br />Esse período está quase às nossas costas, assim como o predomínio global do liberalismo econômico extremo de matriz anglo-americana, mesmo que não saibamos ainda quais mudanças a crise econômica mundial em curso implicará – a mais grave desde os anos 30 –, quando os impressionantes acontecimentos dos últimos dois anos conseguirão se superar. Uma coisa, porém, é desde já muito clara: está em curso uma alternância de enormes proporções das velhas economias do Atlântico Norte ao Sul do planeta e principalmente à Ásia oriental.    <br />Nessas circunstâncias, os ex-Estados soviéticos (incluindo aqueles ainda governados por partidos comunistas) estão tendo que enfrentar problemas e perspectivas muito diferentes. Excluindo de partida as divergências de alinhamento político, direi apenas que a maior parte deles continua relativamente frágil. Na Europa, alguns estão assimilando o modelo social-capitalista da Europa ocidental, mesmo que tenham um lucro médio per capita consideravelmente inferior. Na União Europeia, também é provável prever o aparecimento de uma dupla economia. A Rússia, recuperada em certa medida da catástrofe dos anos 90, está quase reduzida a um país exportador, poderoso mas vulnerável, de produtos primários e de energia e foi até agora incapaz de reconstruir uma base econômica mais bem balanceada.    <br />As reações contra os excessos da era neoliberal levaram a um retorno, parcial, a formas de capitalismo estatal acompanhadas por uma espécie de regressão a alguns aspectos da herança soviética. Claramente, a simples &quot;imitação do Ocidente&quot; deixou de ser uma opção possível. Esse fenômeno ainda é mais evidente na China, que desenvolveu com considerável sucesso um capitalismo pós-comunista próprio, a tal ponto que, no futuro, pode também ocorrer que os historiadores possam ver nesse país o verdadeiro salvador da economia capitalista mundial na crise na qual nos encontramos atualmente. Em síntese, não é mais possível acreditar em uma única forma global de capitalismo ou de pós-capitalismo.    <br />Em todo caso, delinear a economia do amanhã é talvez a parte menos relevante das nossas preocupações futuras. A diferença crucial entre os sistemas econômicos não reside na sua estrutura, mas sim na suas prioridades sociais e morais, e estas deveriam portanto ser o argumento principal do nosso debate. Permitam-me, por isso, a esse ilustrar dois de seus aspectos de fundamental importância a esse propósito.    <br />O primeiro é que o fim do Comunismo comportou o desaparecimento repentino de valores, hábitos e práticas sociais que haviam marcado a vida de gerações inteiras, não apenas as dos regimes comunistas em estrito senso, mas também as do passado pré-comunista que, sob esses regimes, haviam em boa parte se protegido. Devemos reconhecer quanto foram profundos e graves o choque e a desgraça em termos humanos que foram verificados em consequência desse brusco e inesperado terremoto social. Inevitavelmente, serão necessárias diversas décadas antes de que as sociedades pós-comunistas encontrem uma estabilidade no seu &quot;modus vivendi&quot; na nova era, e algumas consequências dessa desagregação social, da corrupção e da criminalidade institucionalizadas poderiam exigir ainda muito mais tempo para serem combatidas.    <br />O segundo aspecto é que tanto a política ocidental do neoliberalismo, quanto as políticas pós-comunistas que ela inspirou subordinaram propositalmente o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o Produto Interno Bruto: o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inigualitário. Assim fazendo, eles minaram – e nos ex-países comunistas até destruíram – os sistemas da assistência social, do bem-estar, dos valores e das finalidades dos serviços públicos. Tudo isso não constitui uma premissa da qual partir, seja para o &quot;capitalismo europeu de rosto humano&quot; das décadas pós-1945, seja para satisfatórios sistemas mistos pós-comunistas.    <br />O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI.</p>
<p>Matéria publicada originalmente no site da <a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16189&amp;boletim_id=602&amp;componente_id=10117" target="_blank">Carta Maior</a></p>
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